Evento realizado no Cubo Itaú, em São Paulo, reuniu profissionais para discutir como a tecnologia pode transformar a rotina jurídica sem deixar de lado questões como ética, segurança e experiência humana
O avanço da inteligência artificial já mudou a forma como diferentes setores lidam com informação, produtividade e tomada de decisão. No Direito, essa transformação ganha contornos ainda mais particulares: como incorporar novas tecnologias a uma atividade que envolve interpretação, responsabilidade, estratégia e relações humanas?
Essa foi uma das discussões presentes no Projuris Summit 2026, realizado em 27 de agosto, no Cubo Itaú, em São Paulo. O evento reuniu profissionais do setor jurídico e de tecnologia para discutir inteligência artificial, dados, automação, gestão e os novos caminhos da advocacia.
O FalaJus acompanhou o evento e conversou com profissionais que apresentaram diferentes perspectivas sobre o impacto da tecnologia na atividade jurídica.
Entre os entrevistados estiveram o advogado e colunista André Marsiglia, o Dr. Fernando Ribeiro, Diretor de Produto da Projuris, o executivo Marcos Costa, Head of Revenue Operations (RevOps) da D4Sign, além das advogadas trabalhistas Dra. Stephanie e Dra. Mayara.
Da tecnologia à cultura
Uma das reflexões mais amplas da cobertura veio de André Marsiglia, que chamou atenção para a necessidade de pensar a inteligência artificial para além da eficiência operacional.
Segundo o advogado, o Direito não pode ser compreendido apenas por uma perspectiva econômica ou burocrática. Para ele, a atividade jurídica também é resultado de reflexões filosóficas, éticas e morais e está diretamente relacionada à cultura.
“O Direito é cultura. A gente precisa olhar para a cultura se a gente quiser que o Direito acompanhe a tecnologia.”
Marsiglia também questionou uma possível desumanização provocada pelo uso inadequado das novas tecnologias.
“Se a gente só fizer o raciocínio comercial, econômico, burocrático, nós vamos nos perder por completo e aí sim nos tornamos máquinas desumanos.”
A discussão levantada pelo advogado coloca uma questão central para o momento atual: não se trata apenas de perguntar o que a inteligência artificial é capaz de fazer, mas também para que ela deve ser utilizada.
O advogado como protagonista da transformação
Essa relação entre tecnologia e rotina profissional também apareceu na entrevista com Dr. Fernando Ribeiro, Diretor de Produto da Projuris.
Ao falar sobre o desenvolvimento das soluções da empresa, Ribeiro destacou a necessidade de transformar dados em inteligência e fazer com que os sistemas tenham uma atuação cada vez mais útil para o profissional.
A ideia apresentada é que as plataformas deixem de funcionar apenas como repositórios de informações e passem a executar ações e oferecer recursos capazes de apoiar diretamente o trabalho do advogado.
“A gente não pode mais pensar que os sistemas de hoje são só um repositório de dados. A gente tem que utilizar esses dados com inteligência e fazer com que esses dados ajam em nome do cliente.”
Nesse contexto, surgiu um conceito que resume parte da visão apresentada pela Projuris:
“A gente quer muito ser o copiloto do advogado, porque esse é o futuro.”
A expressão sintetiza uma mudança de perspectiva: em vez de pensar a tecnologia apenas como uma ferramenta isolada, a proposta é incorporá-la à rotina profissional como uma espécie de apoio permanente para atividades que envolvem processos, contratos, questões regulatórias, societárias e consultivas.
Como saber se uma tecnologia realmente resolve um problema?
Mas desenvolver uma ferramenta não significa necessariamente solucionar uma dor do usuário. E essa foi outra questão abordada por Fernando Ribeiro.
Segundo o executivo, a Projuris utiliza o próprio produto para coletar avaliações dos usuários. Uma das formas apresentadas durante a entrevista é perguntar ao cliente, em uma escala de zero a dez, quanto determinada solução resolveu seu problema.
Quando a avaliação fica abaixo de oito, a empresa busca entender o motivo.
O usuário pode indicar, por exemplo, que aquela não era uma dor relevante para ele ou apontar outra necessidade que ainda não foi atendida.
Esses retornos passam a funcionar como insumo para a área de produto.
A lógica também envolve o trabalho de Customer Success, que acompanha a utilização das ferramentas pelos clientes e busca entender situações em que determinada funcionalidade não está sendo adotada ou está sendo utilizada menos do que poderia.
A partir dessas informações, a empresa consegue identificar oportunidades de melhoria e até mudar a direção de determinados desenvolvimentos.
Tecnologia também precisa gerar eficiência
Outra perspectiva apresentada durante a cobertura veio de Marcos Costa, Head of Revenue Operations da D4Sign.
A empresa levou ao evento discussões relacionadas à assinatura digital, gestão do ciclo de vida dos contratos, inteligência artificial, autenticação e automação.
Para Costa, a transformação digital pode atuar justamente em atividades que historicamente exigiam tempo e custos adicionais.
Ele citou como exemplo a evolução do processo de assinatura de contratos, comparando o cenário atual com uma realidade em que era necessário deslocar-se até um cartório para reconhecer firma.
“A gente consegue unir velocidade, segurança jurídica e um custo muito mais baixo.”
Durante a entrevista, Costa também apresentou um case envolvendo o iFood. Segundo o executivo, a D4Sign desenvolveu uma solução integrada por API e adaptada às necessidades da empresa.
De acordo com os dados apresentados por Costa, a iniciativa teria proporcionado redução de custos e aumento da capacidade operacional, além de permitir a automação de etapas que anteriormente dependiam de intervenção humana.
Segurança e combate às fraudes
A transformação digital, entretanto, também traz um desafio: quanto mais processos passam para o ambiente digital, maior é a importância da autenticação e da segurança.
Costa falou sobre uma nova funcionalidade apresentada pela D4Sign, denominada documentoscopia, voltada à validação de documentos e identidade.
A proposta, segundo ele, envolve diferentes mecanismos de autenticação e consultas para verificar se a pessoa que está realizando determinada assinatura é, de fato, quem afirma ser.
A tecnologia, nesse caso, aparece não apenas como mecanismo de velocidade, mas também como instrumento de segurança nas relações comerciais e contratuais.
Entre produtividade e humanidade
As entrevistas realizadas pelo FalaJus no Projuris Summit apresentaram perspectivas diferentes, mas que acabam se encontrando em um mesmo ponto.
De um lado, estão ferramentas capazes de automatizar tarefas, analisar dados, executar ações, acompanhar contratos e aumentar a produtividade.
De outro, permanece a necessidade de definir como essas ferramentas serão utilizadas e quais aspectos da atividade jurídica não podem ser reduzidos a eficiência ou automação.
A reflexão de André Marsiglia dialoga diretamente com essa questão ao defender que o Direito precisa acompanhar a tecnologia sem abandonar sua dimensão cultural e humana.
Já as falas de Fernando Ribeiro e Marcos Costa mostram como empresas de tecnologia estão trabalhando para transformar essa discussão em soluções concretas para o cotidiano dos profissionais e das organizações.
No fim, a discussão parece ir além da pergunta sobre se a inteligência artificial substituirá o advogado.
A questão passa a ser outra: como construir uma relação em que a tecnologia amplie a capacidade do profissional sem retirar dele o protagonismo sobre o trabalho que realiza?
Foi justamente nesse espaço entre tecnologia, produtividade, segurança, ética e humanidade que o Projuris Summit 2026 concentrou boa parte de suas discussões — e que o FalaJus acompanhou de perto.
Confira também as entrevistas
O FalaJus preparou entrevistas individuais com os profissionais ouvidos durante o evento, além de um compilado com os principais momentos da cobertura.
Acompanhe o FalaJus para conferir os próximos conteúdos sobre tecnologia, inteligência artificial e transformação do Direito.


